No próximo dia 25 de abril, às 18h00, o Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, volta a receber a sessão de escuta coletiva «… e temos o povo…», promovido pela Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril. A entrada é livre, limitada à lotação do espaço.
Escutar Abril, passo a passo, liberdade a liberdade
«… e temos o povo…»
Pelos curadores, Isabel Meira e André Cunha
No ano em que se assinalam os 50 anos da Constituição da República Portuguesa, o projeto itinerante «… e temos o povo…» propõe a escuta coletiva como reforço do ato democrático, numa viagem por todo o país. Os primeiros sons da liberdade ocupam rádios, escolas, livrarias, teatros, espaços públicos, festivais, museus, salas de cinema e, sempre, o Largo do Carmo.
Este sábado, 25 de abril de 2026, às 18h00, o projeto regressa às Ruínas do Carmo.
É um documento raro que permaneceu esquecido durante mais de 50 anos: a primeira montagem da reportagem radiofónica realizada durante o dia 25 de Abril de 1974 por Pedro Laranjeira (1945-2015), Paulo Coelho e Adelino Gomes. Os três autores praticamente não se conheciam e nada tinham combinado. Encontraram-se no Terreiro do Paço, onde captaram as primeiras movimentações militares, no início da manhã, e seguiram juntos no unimog cedido aos jornalistas pelo Capitão Salgueiro Maia.
Integrados na coluna que subiu ao Largo do Carmo, gravaram o momento em que o povo falou sem medo e, pela primeira vez depois de 48 anos de ditadura, gritou nas ruas: «Viva a liberdade!», «Abaixo a guerra colonial!», «Liberdade para os presos políticos!».
Como se estivessem em falso direto, os repórteres relataram o desenrolar do dia inicial. Do amanhecer incrédulo ao romper da coragem, escutam-se as vozes, o motor dos carros militares, os passos em corrida, o rodopiar do helicóptero, as comunicações via rádio, os gritos, os vidros partidos, as perguntas e respostas, os tiros — muitos tiros — o megafone dos capitães, a agonia do regime, as dúvidas e as vontades, o assombro, a festa, a ideia de futuro, rua a rua.
Trata-se de um documento radiofónico único, a nível mundial, com quase quatro horas de duração, que relata de forma contínua o dia mais decisivo de uma revolução. Foi transmitido no programa Limite, da Rádio Renascença, nas madrugadas seguintes à sua própria gravação, e nunca mais voltou a ser escutado.
Mais de meio século depois, o projeto «… e temos o povo…» percorre o país com sessões públicas de escuta coletiva, partilhando este registo central da memória do 25 de Abril. Uma iniciativa inédita promovida pela Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, que teve como ponto de partida uma sessão de escuta integral nas Ruínas do Carmo, a 25 de Abril de 2025, por onde passaram cerca de mil pessoas.
Ao longo de 2026, estão previstas sessões em alguns dos locais mais emblemáticos da história do 25 de Abril, da história da rádio em Portugal, em escolas, festivais e outros territórios onde a memória se cruza com a construção do presente e a reflexão sobre o futuro.
Todas as sessões têm entrada livre, sujeita à lotação dos espaços, e contam com acessibilidade em Língua Gestual Portuguesa, para que a memória sonora da Revolução dos Cravos seja partilhada e apropriada pelo maior número possível de pessoas, num exercício coletivo que reforça o ato democrático.
Fonte/Foto: Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril